Sunday, 22 March 2015

Sapatos

I
São uns sapatos enormes que ele deixou aqui. Cheiram mal e tudo. não servem para nada. Só para dar um cheiro nauseabundo à casa.
Cheirem lá, para nada. Não servem para nada.
Ponho o pé e ficam a boiar, ninguém anda com uns sapatos assim tão largos nem posso fingir que são meus nem guardá-los para os dias de cerimónia.
Se calhar só no carnaval é que dá para andar com eles, para me mascarar dele, e mesmo assim, não tem piada nenhuma, o carnaval não tem piada, os sapatos não me servem
Ainda se fossem daqueles à charlot, que dava para impressionar, para fazer as pessoas rir, agora estes aqui, sem batata à frente
E se fosse dá-los era a quem... quem é que precisa de uns sapatos que cheiram a chulé...
Depois para andar também já não servem muito bem este aqui o direito ganhou o vício que ele tinha de colocar mais peso na parte de trás do pé direito,  a sola está mais gasta aqui, o esquerdo, o esquerdo está bom... mas ninguém anda só com o pé esquerdo, e vai daí, talvez servisse um perneta, mas agora os pernetas também andam com dois sapatos, a fingir que têm dois pés, como os olhos de vidro, aquelas pessoas que têm um olho de vidro, a fingir.
Já não servem para nada.

II
Aos domingos era dia de missa, dia de vestir de branco, lembro-me que era tudo branco, a saia, o vestido com gola bordada, as meias de renda e os sapatos – o que mais me impressionava é que até os sapatos eram brancos. A minha avó comprava-os numa sapataria barata que havia na estrada de benfica. Tinham furinhos para o pé respirar. Sempre me ensinaram da importância do pé respirar. Nunca mais me vesti assim, talvez num ou noutro casamento, mas este cuidado, este rigor no vestir e no calçar. Também nunca mais calcei sapatos brancos. Tenho saudades dos domingos em que nos vestíamos todos de branco, os domingo cerimónia, aos meus cabelos eram feitos canudos. A minha avó atrás de mim, a nossa imagem, no espelho oval.

III
Por que é que não consegui deitar aquelas botas fora? Calcei-as durante um ano todos os dias. Viajaram muito. Lembram-me talvez esse ano livre duro iniciático em que os pés começaram por andar, andar, sempre, caminho em frente. Caminhos novos, serras, neve, paisagens tropicais, mundo. Nunca mais os calcei, emprestei-os à minha mãe como botas de caminhadas de fim de semana. Comprei outras mais modernas. Uma vez na Tailândia apanhei uma bactéria nos pés, bolhas enormes, não conseguia andar – tive de tirar as botas dessa vez – esta sensação de não poder andar, de ser obrigada a parar. Depois em Macau um médico disse-me que era por ter andado sempre com as botas numa espécie de fidelidade mística, quer estivessem temperaturas negativas ou um calor tropical. Hoje quando olho para as botas penso se as bactérias ainda andarão por lá, à espera das circunstâncias ideais para se manifestarem. Desculpem não saber mais de bactérias nem do seu ciclo de vida. Pensar que há bactérias que nos fazem parar de andar, bactérias que fazem das nossas botas casas-mundo-universos. Estas botas ensinaram-me que não preciso de muito para percorrer o mundo e que para morrer me basta, como dizia Segalen, estar lá fora, sob o céu e as estrelas.

IV
Os sapatos lembram-me os campos de concentração agora tornados museus da memória. Pilhas de sapatos para que não nos esqueçamos. Arundathi Roy dizia: nunca esquecer, nunca esquecer, nunca esquecer.

V
O meu amigo Tobias tinha uns amigos estrangeiros que andavam sempre descalços, recusavam-se a usar sapatos e também a andar em qualquer meio de transporte que não fosse andar a pé. Não me lembro se também andavam de bicicleta. (...) Eles andavam descalços e a pé por esse mundo fora, por exemplo, vieram da Alemanha até Portugal a pé. Viviam na Serra da Lousã e um dia partiram de novo para leste, via Alemanha. Os pés, contava-me o Tobias, tinham desenvolvido uma sola dura espessa, como se o próprio corpo tivesse criado uma protecção especial para esse andar. Se calhar, se andássemos mais descalços não precisaríamos de sapatos para nada.

VI
Tenho uma série de caixas de sapatos guardadas como se fossem tesouros ou segredos, não sei porquê. Não consigo usá-los. Não me dá jeito. Preciso de estar ligada à terra, com os pés no chão. Há sapatos que cortam essa ligação, mesmo assim, gosto de olhar para eles e de imaginar, talvez, outras histórias, outros lugares, vestir outras peles, essa segurança de que nos podemos reinventar sempre todos os dias quando quisermos.

No outro dia, reparei que uns desses sapatos, anos 60, estilo hippie, flower power, estavam com bolor, tirei-os da caixa para apanharem ar e surpreendi-me com este espírito de coleccionadora que nunca pensei ter – a posse. A segurança transmitida pelo possuir.

VII
Nunca me importei de usar roupa em segunda mão, fui sempre habituada a isso. O meu avô, na altura do 25 de Abril, vindo de Moçambique, fez parte de uma associação de retornados, que providenciava ajuda e apoio retornados, chamava-se FRAUL. Em casa recebíamos sacos de roupa em segunda mão. Estranhamente, nunca consegui calçar sapatos em segunda mão, sapatos com a forma de outros pés, com outras histórias, com outra alma ou personalidade. Tenho sempre medo de apanhar mais bactérias ou então de me transformar a pouco e pouco na antiga dona dos sapatos, de começar a manifestar laivos de personalidade que não são os meus. Os sapatos são objectos mais pessoais do que cuecas. Pior do que sapatos usados só mesmo sapatos baratos, que não se adaptam, como se não estivessem vivos, sim, é preciso que os sapatos estejam vivos, connosco.

VIII
Tive sempre uma queda por sapatos estranhos, sapatos esquisitos. Hoje em dia aprendi a controlar esta tendência. Quando tinha doze anos havia uma moda de uns sapatos com sola de borracha grossa e com uma batata à frente, tipo sapato de palhaço urbano. A minha mãe deixava-me comprar tudo o que eu queria e fazer tudo o que eu queria. Era adepta da liberdade total na educação dos filhos. Cheguei a casa e o meu pai a ficar branco a olhar para os meus pés e depois a engolir em seco quando soube do preço dos sapatos. Não sei se o meu pai é racista, mas sempre me disse que eu tinha um gosto à preto. Acho que ele queria dizer que eu era extravagante. O prazer de andar com aqueles sapatos meio palhaço urbano meio menina da escola. Que felicidade!

Friday, 19 December 2014

Biografia

MARIA GIL (Lisboa, 1978): Licenciada em Formação de Actores e Encenadores pela Escola Superior de Teatro e Cinema de Lisboa (2003), obteve o grau de Master of Philosophy pelo Departamento de Estudos de Teatro, Cinema e Televisão da Universidade de Glasgow (2009), pelo seu trabalho de pesquisa cuja tese se intitula, Performances Autobiográficas e Intimidade. Na sua formação não-académica destaca a participação no Workshop de performance dirigido pela companhia americana Goat Island, integrado na Winter School da National Review of Live Art, Glasgow (2008); na 2ª Edição do Curso de Encenação para Teatro dirigido pelos Third Angel/Programa Gulbenkian Criatividade e Criação Artística (2007). Como actriz trabalhou com os encenadores: Estrela Novais, Tiago Rodrigues, Luís Romeira, Madalena Vitorino, Pedro Alves/Teatromosca, João Brites/Teatro O Bando, João Ricardo, Joana Craveiro/Teatro do Vestido. É fundadora e directora artística do Teatro do Silêncio. Foi um dos 20 artistas residentes no Sítio das Artes, Programa O Estado do Mundo da Fundação Calouste Gulbenkian integrando a área da encenação (2007). Realizou uma residência artística na cidade de Huesca, em Espanha ao abrigo do Map - Programa de Apoio à Mobilidade de Jovens Artistas (2009). Em 2010 fundou a Editora Elefante Azul Clarinho com o objectivo de publicar textos escritos para cena. Foi professora de teatro durante oito anos no ensino básico, secundário e superior. Integrou o projecto 10x10 para a educação e as artes e o projecto Operação Stop, iniciativas do Programa Descobrir da Fundação Calouste Gulbenkian com o qual colabora desde 2012. Foi directora artística e co-criadora do espectáculo Vissaium (2013) numa produção do Teatro Viriato, um projecto que visava dar a conhecer o património arqueólogico da cidade. Recentemente, foi directora artística do projecto Raízes da Curiosidade (2014) que juntou artistas e neurocientistas num espectáculo e numa série de oficinas numa co-produção com a Fábrica das Artes/CCB e a Fundação Champalimaud. É voluntária na área da escrita criativa com pessoas com doença mental crónica no Grupo de Acção Comunitária em Carnide, Lisboa. A revista galega de artes cénicas, Núa, num número dedicado às novas dramaturgias portuguesas publicou um texto seu: Procura Por Mim Neste Diário, O Resto Não Vale Nada.