Monday, 13 April 2015

#1. Dia

Eu queria deitar estas fotocópias para o lixo. Já não me servem para nada. Hoje em dia ninguém usa fotocópias e guardar papel cria bicho. Não ficam bonitas nas estantes. Lixo com elas! A consciência não me deixava deitá-las para o lixo, era quase igual a queimá-las. Era queimar pestanas, conhecimento. E se servissem a alguém.? Mas deixa lá ver as fotocópias. Eram de quando eu estudava teatro. 1997. Alguma vez as li? Vou fazer alguma coisa com elas. Um espectáculo, um exercício de escrita, não sei... Vou começar sem saber em que é que isto vai dar.

PASSO1
TIRAR NOTAS DOS TEXTOS FOTOCOPIADOS
[METODOLOGIAS E SISTEMATIZAÇÃO]

Para que é que as notas vão servir mais tarde:
Estabelecer ligações entre os diferentes temas/assuntos;
Compreender a minha linha de estudo, os meus interesses e o que eu achava importante na altura (contexto);
Familiarizar-me com as terminologias e conceitos;
Ter material para ensaios, artigos, textos;
Compreender, descobrir os meus interesses;
Rever, olhar para trás;
O que cada livro, pelo seu título, me sugere e que perguntas é que eu coloco ao livro? De que forma é que o livro contribui para o “quadro geral”;
Que outras leituras tenho de fazer para ler o livro, ou a até onde é que o livro me leva, outros autores, etc.
Não absorver tudo, mas seleccionar!
Ao ler já estou a analisar e isso depois far-me-á aplicar
Perguntas durante a leitura também
Fazer marcações,, como se se tratasse de uma caminhada e deixo pistas-sinais para quem vem atrás ou para voltar
Sublinhar citações importantes a usar
Atenção aos desvios, digressões do autor
Perceber se a informação do livro poderá ser obtida mais facilmente noutro lugar
Ter apenas a informação que acho necessária
Compreender/sublinhar ideias a relacionar
Tentar identificar palavras-chave (construir um glossário)
Palavras-chave expressam as ideias principais, os sinais ou marcas identificam a estrutura de pensamento, a narrativa – o sentido.
Rever as notas e compreendê-las. Serem legíveis.
Estou a trabalhar por acumulação, passo a passo
Qual será o melhor sistema de armazenamento de notas a utilizar. Folhas soltas e depois guardá-las sistematicamente, por dias (diário) A decidir...
Deixar espaço entre as linhas das notas e fazer com que os pontos-chave sejam claros, para poder adicionar novos comentários
Alternar entre um sistema linear de notação e um mapa visual (padrão)

PASSO 2
O QUADRO GERAL: IDENTIFICAR AS FOTOCÓPIAS, DISPÔ-LAS, DESARRUMAR.












CRIAR UM ÍNDICE POR ORDEM ALFABÉTICA

A Minha Biblioteca de Fotocópias:
  1. A Bela Portuguesa de Agustina Bessa-Luís
  2. A Luz Sobre a Forca de Anna Seghers
  3. A Preparação do Actor de Konstantin Stanislavski
  4. A Sonata Dos Espectros (Programa) Ciclo Strindberg, org. Teatro da Cornucópia
  5. Breve Sumário da História de Deus de Gil Vicente
  6. Cours de Béatrice Picon-Valiin, Le Théâtre Russe Et Soviétique Au XXE Siècle Repères Bibliographiques En Français
  7. Dança de Roda de Arthur Schnitzler
  8. Domínio do Movimento de Rudolf Laban
  9. Every Little Movement,A Book About François Delsarte, de Ted Shawn
  10. Everything In The Garden, de Edward Albee
  11. Lulu, A Monstruosa Alegoria de Pandora, adaptado a partir da versão original por Kadidja Wedekind
  12. Loucos Por Amor de Sam Shepard
  13. O Jardim das Cerejas de Anton Tchekov
  14. O Misantropo de Molière, sebenta de vários textos sobre a peça
  15. Praça dos Heróis de Thomas Bernhard
  16. Sebenta com vários textos sobre encenações de peças de Tchekhov
  17. Um Eléctrico Chamado Desejo de Tennesse Williams

Comentário: 17 volumes; 13 autores; 5 autoras.

Uma primeira frase é sempre uma primeira frase: começa.
 Gonçalo M. Tavares, Atlas do Corpo e da Imaginação, O Corpo no Método, p.041

PASSO 3
ANOTAR AS PRIMEIRAS FRASES
CONSTRUIR UMA MÁQUINA DE INÍCIOS

#1.
«Personagens
Um casal: Dona Elisabeth, modista e seu marido, Amaro, um doente.»
A Bela Portuguesa de Agustina Bessa-Luís
#2.
«Antoine saía do café onde costumava ir tomar qualquer coisa, à tarde, antes de ir ter com os seus alunos.»
A Luz Sobre a Forca de Anna Seghers
#3.
«Foi hoje o dia da nossa primeira lição com Tortsov, o director.»
A Preparação do Actor de Konstantin Stanislavski
#4.
«Há um  momento, antes da morte, em que passamos toda a nossa vida em revista.»
A Sonata Dos Espectros (Programa) Ciclo Strindberg, org. Teatro da Cornucópia
#5.
«O auto, que se segue, é intitulado Breve Sumário da História de Deus, feito por Gil Vicente.»
Breve Sumário da História de Deus de Gil Vicente
#6.
«Histoire de la littérature russe. Gels et dégels, Paris, Fayard, 1990.»
Cours de Béatrice Picon-Valiin, Le Théâtre Russe Et Soviétique Au XXE Siècle Repères Bibliographiques En Français
#7.
«A Prostituta e o Soldado. Fim de tarde. Perto da ponte Angarten. O soldado chega, a assobiar; quer ir para casa.»
Dança de Roda de Arthur Schnitzler
#8.
«O Homem se movimenta a fim de satisfazer uma necessidade.»
Domínio do Movimento de Rudolf Laban
#9.
«François Delsarte was born November 11, 1811, at Solesmes, France.
Every Little Movement,A Book About François Delsarte, de Ted Shawn
#10.
«Scene One
(Stage empty, sounds of lanmover (hand) out picture window.»
Everything In The Garden, de Edward Albee
#11.
«Prólogo
Uma orquestra, eventualmente composta por harpa e viola de arco, toca a melodia de «Galateia»: graciosa, poética e um pouco macabra.»
Lulu, A Monstruosa Alegoria de Pandora, adaptado a partir da versão original por Kadidja Wedekind
#12.
«Esta peça deve ser representada implacavelmene, sem interrupção»
Loucos Por Amor de Sam Shepard
#13.
«Primeiro Acto
Uma divisão a que continuam a chamar o quarto dos miúdos.»
O Jardim das Cerejas de Anton Tchekov
#14.
«Edição ao Leitor
Tendo o Misantropo recebido no teatro, desde a sua primeira representação, a aprovação que o leitor não lhe poderá recusar, e estando a corte em Fontainebleau quando ele apareceu, pensei que não poderia fazer nada mais agradável para o público do que dar-lhe a conhecer esta carta sobre o tema da comédia, que foi escrita, um dia depois, a uma pessoa de nível.»
O Misantropo de Molière, sebenta de vários textos sobre a peça
#15.
«Cena primeira
Uma grande divisão com armários roupeiros embutidos»
Praça dos Heróis de Thomas Bernhard
#16.
«Tchekhov est enépuisable, disait Stanislavski.»
Sebenta com vários textos sobre encenações de peças de Tchekhov
#17.
«Cena 1
Exterior dum prédio de dois andares numa rua de Nova Orleães chamado Campos Elísios, entre a linha de caminho de ferro e o rio.»
Um Eléctrico Chamado Desejo de Tennesse Williams



TPC
CRIAR UM GLOSSÁRIO

TIRAR UM FRAGMENTO DE CADA VOLUME

#0. O Projecto

DESEMPACOTANDO A MINHA BIBLIOTECA DE FOTOCÓPIAS
DE  MARIA GIL

{ INSPIRADO NO TEXTO, DESEMPACOTANDO A MINHA BIBLIOTECA, DE WALTER BENJIAMIN }

é um exercício de escrita teatral que tem como metodologia a colagem de frases, a fragmentação de textos, o recorte de palavras e a abordagem de práticas xamânicas que investem sobre o corpo como forma de  acederem ao mundo simbólico da artista. Este exercício começa pela inventariação de fotocópias de peças e textos de teatro, que estavam guardados em caixas de cartão, há mais de dez anos. «Fotocópias de quando era aluna de teatro que me recordam os sonhos que moldaram a minha prática artística.» Trata-se de um guia ideológico actualizado.

«Peço-vos apenas que me acompanhem nesta desordem de caixotes abertos, no ar cheio de pó de madeira, no chão cheio de papéis rasgados, sob as pilhas de livros que acabaram de ver de novo a luz do dia depois de dois anos de escuridão, para partilharem um pouco comigo o estado de espírito, nada elegíaco, antes tenso, que eles despertam num autêntico coleccionador.» Walter Benjamin, Desempacotando A Minha Biblioteca.

Criação e Interpretação: Maria Gil
Estreia: 2016/2017
Produção: Teatro do Silêncio
Acolhimento: Teatro do Vestido2013


BIOGRAFIAS
MARIA GIL (Lisboa, 1978): Licenciada em Formação de Actores e Encenadores pela Escola Superior de Teatro e Cinema de Lisboa (2003), obteve o grau de Master of Philosophy pelo Departamento de Estudos de Teatro, Cinema e Televisão da Universidade de Glasgow (2009), pelo seu trabalho de pesquisa cuja tese se intitula, Performances Autobiográficas e Intimidade. Na sua formação não-académica destaca a participação no Workshop de performance dirigido pela companhia americana Goat Island, integrado na Winter School da National Review of Live Art, Glasgow (2008); na 2ª Edição do Curso de Encenação para Teatro dirigido pelos Third Angel/Programa Gulbenkian Criatividade e Criação Artística (2007). Como actriz trabalhou com os encenadores: Estrela Novais, Tiago Rodrigues, Luís Romeira, Madalena Vitorino, Pedro Alves/Teatromosca, João Brites/Teatro O Bando, João Ricardo, Joana Craveiro/Teatro do Vestido. É fundadora e directora artística do Teatro do Silêncio. Foi um dos 20 artistas residentes no Sítio das Artes, Programa O Estado do Mundo da Fundação Calouste Gulbenkian integrando a área da encenação (2007). Realizou uma residência artística na cidade de Huesca, em Espanha ao abrigo do Map - Programa de Apoio à Mobilidade de Jovens Artistas (2009). Em 2010 fundou a Editora Elefante Azul Clarinho com o objectivo de publicar textos escritos para cena. Foi professora de teatro durante oito anos no ensino básico, secundário e superior. Integrou o projecto 10x10 para a educação e as artes e o projecto Operação Stop, iniciativas do Programa Descobrir da Fundação Calouste Gulbenkian com o qual colabora desde 2012. Foi directora artística e co-criadora do espectáculo Vissaium (2013) numa produção do Teatro Viriato, um projecto que visava dar a conhecer o património arqueólogico da cidade. Recentemente, foi directora artística do projecto Raízes da Curiosidade (2014) que juntou artistas e neurocientistas num espectáculo e numa série de oficinas numa co-produção com a Fábrica das Artes/CCB e a Fundação Champalimaud. É voluntária na área da escrita criativa com pessoas com doença mental crónica no Grupo de Acção Comunitária em Carnide, Lisboa. A revista galega de artes cénicas, Núa, num número dedicado às novas dramaturgias portuguesas publicou um texto seu: Procura Por Mim Neste Diário, O Resto Não Vale Nada.


TEATRO DO SILÊNCIO (Lisboa, 2004): fundado com o objectivo de criar espectáculos a partir de pontos de partida originais e com um forte carácter experimental. Esta estrutura de criação é dirigida por Maria Gil e Pedro Silva, trabalhando frequentemente em colaboração com outros grupos de teatro e criadores independentes. São marcas e características do grupo: a realização de um trabalho experimental expresso na procura de diferentes pontos de partida e temas para os espectáculos; a criação de dramaturgias originais; a utilização de materiais autobiográficos como ponto de partida dramatúrgico; a exploração de uma relação íntima com o público; o desenvolvimento de um trabalho multidisciplinar expresso no convite realizado a criadores de outras áreas para integrarem cada novo projecto. Em 2009 o grupo fundou a Editora Elefante Azul Clarinho com o objectivo de publicar textos originais escritos para cena. Os últimos espectáculos do grupo foram apresentados na Escócia e em Espanha.